Os doutores (deuses) do destino

Histórias da Nossa Terra 

lago do niassa

Fui um menino sortudo, nasci numa maternidade com água e luz, um privilégio que muitos meninos da província do Niassa não têm. Sortudo por ter uma rede mosquiteira, para que os mosquitos da malária não viessem me dar as boas-vindas.

Aos 8 anos eu já frequentava a 3ª classe e por mais incrível que pareça, eu sabia escrever meu nome, o que também foi um privilégio. A nossa turma era de 200 alunos e apenas dois sabíamos escrever.

Meus pais sabiam dos debates sobre a qualidade de ensino e a passagem automática. Uma vez os ouvi discutindo. Meu pai dizia que no tempo dele aprendia-se caligrafia, mas que hoje em dia, com as tecnologias, já não se sabe escrever. A minha mãe, que frequentava o curso de professorado, dizia que o problema não era da tecnologia, porque mesmo no computador é preciso escrever bem, respeitar a gramática, etc. Para ela, o problema estava na pretensão de resolver os problemas do país na velocidade da luz. Ela também contava que a qualidade viria depois. “O que importa é ser chamado de doutor”, dizia. Por fim, eles chegaram a um consenso: graças a Deus que o nosso filho está no bom caminho, sabe escrever e ler. Ele tem futuro!

Um dia, quando eu tinha 14 anos, de repente fui acometido por uma forte dor de estômago. Fomos ao hospital com a esperança de que era algo passageiro. Eu não gritava de tanta dor só para não assustar os meus pais. Eu sabia que eles depositavam toda a esperança em mim, de que um dia iria construir um mundo melhor para eles.

Os médicos não deram com certeza o prognóstico da minha dor. Depois de três dias é que informaram aos meus pais que eu tinha uma apendicite e que deveria ser operado com muita urgência. Eu já não conseguia falar, mas conversava comigo mesmo, me lembrava dos meus amigos da escola, do bairro, dos meus irmãos que não tive tempo de os aconselhar a que estudassem para merecer o adjectivo de doutor. A prova de o ter sem merecer era eu ali sem poder dizer aos meus pais que seria impossível ser operado por alguém que acabara de me anestesiar, e em seguida me abandonara por não saber como fazer. Tive peritonite e ficou complicado.

Foi tudo muito rápido. Quando me dei conta eu já estava de partida por negligência de um sistema complexo, que está preocupado somente em resolver problemas de crescimento económico, negligenciando o desenvolvimento social.

Fui e deixei os meus pais sem a possibilidade de pedir justiça.

Autor: Feliciano dos Santos

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: