Como dói

Histórias da Nossa Terra 

lichinga
Meus pais, pacatos cidadãos de uma aldeia, eram tão apaixonados que se comprometeram através das leis costumeiras de fidelidade até a morte. Eles tinham uma machamba onde produziam o suficiente para se alimentarem e o excedente vendiam na pequena banca que tinham em frente da casa. Uma parte do pouco que conseguiram poupar, compraram o orgulho da nossa tribo, um rádio e uma bicicleta. 

Eles planearam o meu nascimento, foi uma daquelas noites cujo brilho da luz natural só é possível de se ver numa aldeia. No momento de prazer, uma estrela incandescente fulminou o quarto e meus pais disseram em uníssono: “Vamos ter uma filha”.  

No hospital foram informados de que eu estava bem e já tinha seis meses partilhando o dia a dia com a minha mãe. Meu pai babava de alegria, sentado no banquinho, ia escutando notícias na rádio sobre as universidades que estavam sendo abertas na província, sobre os planos de projectos florestais e sobre possíveis projectos de exploração de carvão mineral. Ele foi sonhando acordado sobre o meu futuro. Num desses sonhos eu era uma engenheira de sucesso, orgulho da nossa aldeia e referência das poucas raparigas a frequentarem a escola.

Um dia, o sonho dele foi interrompido com os gritos de dor de minha mãe, não esperavam que eu pretendia conhecê-los mais cedo do que estava previsto. Eram 3 horas da manhã, na aldeia havia uma matrona que dava assistência aos partos e foi responsável pelo nascimento de muita gente. Mas nesse dia azar meu, ela tinha ido visitar a família noutra aldeia. 

A situação estava a ficar complicada, a bolsa de água já tinha arrebentado e o hospital ficava a 25 km. A minha curiosidade de vir ao mundo estava longe de ser realizada. Meus pais não sabiam o que fazer, não havia ambulância, o único transporte era a bicicleta. Rogaram pragas aos que tinham  prometido construir uma maternidade. 

Minha mãe, não resistiu de tanta hemorragia, iniciamos a nossa viagem para o além juntos. Levei algum tempo antes de me apagar e ouvi meu pai dizendo algumas palavras lá longe, algo como: “Trocam vidas por….”.

Eu fui sem nunca ter chegado.

Autor: Feliciano dos Santos

 

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One response

  1. Muito triste, mas infelismente ainda faz parte d nossa dura realidade, milhares d pessoas vao s mesmo antes d xegar, e todas as campanhas s d promessas e mais promessas

    Ate kndo viver d promessas
    Ate kndo sangue sera derramado aguardando s por promessas nunca cumpridas

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