Estou vivo!

Histórias da Nossa Terra 

ilha de moçambique lucila runnacles
Eu era um menino sem interesse pela vida, tudo me irritava, queria ser algo diferente que me desse facilidades de viajar, ser poderoso, estar em todo o lugar sempre que me apetecesse. Um destes dias fui dormir e acordei em todos os lados; EUA, UK, Dinamarca, Holanda, Etiópia, Iraque, Moçambique, casa de rico, de pobre, na cadeia, nos hospitais, nos bancos, nos palácios presidenciais, nos caixões, na mortuária. Epa! Tentei perceber o que era eu. Decidi aproveitar a oportunidade para descobrir o mundo e seus segredos. Fui para o bolso de um pobre e me senti sufocado. Cada minuto ele me apertava com receio de me ver fora dele. Ele decidiu me dar conforto numa capulana, fiquei três semanas. No dia que o pobre decidiu me largar fui trocado por um simples pedaço de pão, caí na caixa de um rico. Eu estava poderoso, ele me levou para casa, mas me jogou na cozinha num plástico. Senti saudades do pobre. Dia seguinte antes de sair fui motivo de muita discussão. Ouvi insultos terríveis, fui levado às pressas e atirado para o banco de trás do carro.

Para meu espanto, fui entregue a uma tipa numa esquina, que me trocou por um jogo de calcinha e sutiã numa boutique. Fiquei todo o dia ouvindo conversa sobre casais:Os homens são uns safados…O meu é um parvo e cacata, gosta de me ver bonita, mas nem sabe de onde vem o dinheiro que compro as roupas”.

No final do dia me colocaram numa carteira, pelo visto fui roubado. Na estrada ouvi gritos e tiros, fui roubado de novo. Pensei que estava sendo jogado no mar, afinal estava no meio de sangue. Fui motivo de morte.

Depois, me pegaram e me jogaram num banco. Aí sim ouvi outro tipo de conversas: “Oiiii, o cheque passou, não te esqueças da minha parte…O tipo se ferrou, amanhã limpo o ficheiro”.

De madrugada me sacaram de uma ATM de forma violenta, uns tipos explodiram a caixa e fui conhecer outro mundo. A conversa aqui era séria: “Mataste aquele gajo e aquela gaja na rua. Ah, a tipa tinha pouca mola…” Em seguida um silêncio e uma voz rasgou forte e disse: “Vocês estão a estragar tudo, não vos solto para matar muito e roubar pouco…”

Nessa mesma noite fui trocado por uma garrafa de whisky Gold Label, num hotel cinco estrelas. Ouvi as mais variadas histórias de corrupção e negócios ilícitos. De repente um estrondo, o hotel foi pelos ares, era um ataque terrorista. Eu estava flutuando. Vi que o clarão era muito forte. Nunca tinha visto algo assim em toda minha vida. Fiz um esforço, abri os olhos e vi luz, a lâmpada da nossa casa estava acesa, a energia tinha chegado na nossa aldeia, gritos de alegria por todo o lado: “Cahora Bassa é nossa, Cahora Bassa é nossa”!!

Senti me bem por saber que estava vivo. Acordei, olhei para os meus pais e compreendi a razão deles serem felizes.

Autor: Feliciano dos Santos

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